Um desentendimento envolvendo o uso de nome social terminou em agressão dentro do Pronto Atendimento (PA) do Jardim Universo, em Mogi das Cruzes, no último dia 15. O caso mobilizou debates nas redes sociais e levantou discussões tanto sobre respeito à identidade de gênero quanto à proteção às mulheres e segurança dos profissionais de saúde.
Inicialmente, a Prefeitura divulgou uma nota relatando o ocorrido, mas novas versões vieram à tona: a paciente trans envolvida e a enfermeira apresentaram à reportagem do Notícias de Mogi seus relatos, que divergem em alguns pontos sobre o que levou ao conflito.
De acordo com a enfermeira, Bruna, a paciente chegou à triagem informando que gostaria de ser chamada de Ágatha, foi quando a profissional teria respondido: “‘Eu vi que seu documento ainda não está trocado, então vou colocar como ‘Suposta Ágatha’, tudo bem?’. Ela já me respondeu rispidamente, dizendo que não queria saber, que tinha nome social e gostaria de ser chamada de Ágatha”, relatou a enfermeira, acrescentando que não tinha como fazer a alteração do nome no sistema e que isto deveria ser feito na recepção. Ainda segundo Bruna, a utilização do ‘Suposto’ antes do nome é uma prática comum nestes casos e um procedimento de praxe adotado na rede municipal de saúde.
A paciente, Ágatha, por sua vez, disse que falou à enfermeira que gostaria de ser chamada pelo nome social, porém, antes mesmo de ela se sentar, a profissional teria respondido, de forma que todos pudessem ouvir: “mas no seu RG está Jonathas”. “Foi quando eu vi que teria um problema com ela e falei: ‘você vai me chamar de Ágatha, porque é lei, não estou pedindo para você retificar meu nome ou mudar o sistema do posto, só para você verbalizar: Ágatha”, disse a paciente, afirmando, ainda, que a enfermeira agiu com cinismo e, em momento algum, a chamou pelo nome social. “Eu estou acostumada com os postos em São Paulo. Lá, eu dou meu cartão do SUS e eu sou a Ágatha. O sistema aqui em Mogi peca porque, antes de a gente abrir a ficha, eles colocam antes do nosso nome, ‘Suposto’ ou ‘Suposta’. Isso para mim é uma humilhação”.
De acordo com a versão da enfermeira Bruna, em certo momento da discussão, ela falou para a paciente: “‘Se está achando que eu estou sendo transfóbica, vamos chamar a polícia, para que a senhora seja atendida acompanhada por eles’. Aí ela levantou, olhou para mim e me deu um soco no rosto, que eu rodopiei na cadeira da triagem, eu sangrei muito, tive fratura de face, fiquei internada”, disse ela, acrescentando que o acompanhante da paciente também tentou agredi-las, mas não conseguiu entrar na sala em que elas estavam. “Aí eu catei o suporte de braço, de medir pressão e joguei na porta, parece que atingiu a cabeça dela, ela teve que tomar três pontos”, falou Bruna, garantindo em nenhum momento ela chamou a paciente pelo nome de batismo.
Já a versão da paciente é diferente. Segundo Ágatha, quando a enfermeira levantou a possibilidade de acionar a polícia, ela disse à profissional: “‘se for ligar para a polícia não vai ser para mim, vai ser pra você’. Ela achou que eu estava a ameaçando e falou: ‘Quer me agredir? Então agride, Jonathas’. Neste momento, eu confesso que perdi a noção da vida. Eu vi tudo em câmera lenta, só ouvi as batidas do meu coração e quando eu fui ver já tinham separado a nossa briga. Eu agredi ela, no rosto. Não foi soco, como ela diz, foi tapa. Depois afastaram ela de mim, eu fiquei na porta da sala e quando eu virei para conversar com uma segurança, ela jogou uma barra de ferro na minha cabeça. Eu caí na hora no chão do posto, na frente de todo mundo, e quando eu levantei eu estava sangrando”.
Após o ocorrido, ambas se dirigiram à delegacia, onde foi aberto um boletim de ocorrência. O caso será investigado pela polícia.
A Secretaria Municipal de Saúde e Bem-Estar informou que cobrou da Fundação do ABC, responsável pela gestão do Pronto Atendimento, a abertura de sindicância para apurar o ocorrido. A pasta ressaltou que acompanha o caso e reforçou sua posição de repúdio a qualquer forma de preconceito, discriminação ou violência, além de garantir apoio à equipe envolvida.
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